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Precisas de mim?

Parece uma pergunta básica, comum, cheia de disponibilidade.
Tudo aquilo que está por ‘detrás’ dela é que não!


Foram inúmeras as vezes que perguntei a mim própria o por quê de ser tão disponível para os outros e ficar completamente arrasada quando dou conta que não tenho essa mesma disponibilidade por parte do mundo.
Fazer terapia há 2 anos ajuda a desmistificar muitas coisas e a compreender outras tantas.
Muitas vezes digo que ir à terapia é levar uma porrada, e é.

A psicóloga usou em tempos uma expressão que se infiltrou na minha mente durante semanas: “se eu lhe pedir farinha, a Sofia aparece-me com o bolo já feito”. Podia ter piada, eu própria sorri quando ela o disse. Sei que não o fez em jeito de crítica, mas sim para me deixar a pensar sobre uma característica tão minha.

Considero-me genuinamente boa ouvinte, ouço para compreender, ouço sem julgar (embora nem sempre tenha sido assim), não comparo tragédias nem faço aquilo que se tornou tão típico na sociedade “ah, comigo foi assim e assado”!!!!
Mas quando terminam os desabafos, na maioria das vezes a minha pergunta é “como te posso ajudar?”! Parece bom, parece empático, mas como a psicóloga me explicou, nem sempre as pessoas querem a minha ajuda. Muitas vezes nem querem, ou não sabem do que precisam para serem ajudadas e esta pergunta induz as pessoas a agir, como se fosse perentório tomar alguma atitude, resolver algum problema…e isto pode de facto afastar as pessoas de mim.
Sem querer, posso estar a transmitir a ideia de que são incapazes.

Doeu-me perceber isto? P’ra carai!

Nunca o fiz para menosprezar ninguém, para mostrar que sou mais capaz ou mais eficiente. Sempre o fiz porque é o que gostaria que fizessem comigo. Desabafo muito pouco, conto pelos dedos de uma mão (e sobram dedos) as pessoas a quem abro o meu coração e com quem partilho os meus pensamentos. Quando o faço é porque sinto que já estou num nível em que não consigo lidar sozinha. Quando o faço, no fundo o que quero ouvir é “como te posso ajudar?”.

É perigoso depositar nos outros as nossas expetativas. É perigoso ainda não conseguir pedir ajuda abertamente, estou muito melhor nesse aspeto, mas o caminho ainda é longo.

Fui menina-mulher muito cedo. Muitas responsabilidades, muita carga emocional em cima de mim. Não tive a infância que desejo para os meus filhos, perdi a inocência demasiado cedo e vi/ouvi coisas que nenhuma criança deveria ver/ouvir.
Na minha família de casa, sentimentos eram tabus. Não falávamos abertamente sobre o que sentiamos, o que nos preocupava, o que nos amedrontava. Cresci com uns pais que me amam muito, mas que nunca foram capazes de me dizer “eu amo-te filha” (e se calhar é por isso que o digo todos os dias e mais que uma vez ao dia aos meus filhos)! Cresci com pais que sobreviveram a uma tragédia e passaram o resto da vida a reagir, não a usufruir/viver.
Nunca me faltou o essencial. Educação, comida na mesa, roupa e calçado, cultura e entretenimento. Faltou-me o mais importante: “Precisas de mim filha? Como te podemos ajudar? Como te sentes?”!!!

Fui muito amada de forma racional e prática. Faltou-me ser amada de forma afetiva. Faltou-me carinho. Faltou-me colo. Faltou-me ombros onde chorar. Faltou-me ser vista…e eu queria tanto (e ainda quero)ser vista por tudo o que sou na realidade, não pelo que acham que eu sou.

Amo os meus pais e a minha irmã. Não há nada no mundo que não fizesse por eles. NADA! A única coisa que quero é que não precisem de mim, mas que me queiram, pelo que sou, pelo que deixei de ser, pelo que poderei vir a ser.

Se algum dia lhes direi isto? Provavelmente não.
Porque a Sofia não incomoda, não ofende, não cria confusões.
Porque a Sofia vai continuar a perguntar “Precisam de mim?”!

Precisarem de mim é a única forma que encontram para me colocarem nas vidas deles. Por muito que doa, a minha disponibilidade não vai desaparecer, porque eu quero muito estar na vida deles, ainda que com a esperança de um dia ser vista.

Com amor,
Sofia

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