Esta é a primeira vez que aqui escrevo.
Demorei muito tempo a decidir qual seria o primeiro texto.
Porquê agora? Qual o objetivo? Que benefícios pode isto trazer à nossa vida?
A minha vida acabou e recomeçou há sensivelmente dois anos. Um dia falaremos sobre isso.
Hoje escrevo porque nos últimos dias aconteceram 2 coisas que me tiraram do meu centro de equilibrio. Escrever isto é, de certa forma, assumir um compromisso com o mundo. Para não quebrar. Para não esquecer.
No dia 15 de julho fui a uma consulta por causa de um “sinal” que me tinha nascido muito perto do olho.
A médica, muito direta e firme diz-me que se trata de um carcinoma basocelular e que tem que ser retirado. Marcou cirurgia para dia 26 de Agosto. O que ela não sabia é que o Verão de 2024 me ensinou muito sobre saúde. Um dia também falaremos disso.
No dia seguinte, estava noutro hospital, com outro médico a pedir uma segunda opinião.
Não foi tao perentório no diagnóstico mas concordou que teria que ser removido de imediato e enviado para biópsia.
Assim foi.
Uma hora depois estava ‘livre’. Ou talvez não, porque naquele momento começava a espera de três semanas pelo resultado. Essa ansiedade ninguém a consegue retirar.
De entre todas as recomendações médicas esta foi a mais importante: evitar exposição solar direta.
No fim-de-semana fui com o meu namorado e os nossos filhos – os meus e os dele- a uma atividade aquática.
Pela diferença de idades, acabaram por brincar em zonas separadas.
E eu fiquei sozinha.
Ao sol.
Sem proteção.
O protetor solar estava no carro.
Podia tê-lo ido buscar.
Porque não fui?
Porque não quis interromper a brincadeira de nenhum dos miúdos.
Porque não quis pedir ao meu namorado que ficasse um bocadinho com os 4 miúdos.
Porque, mais uma vez, não me priorizei.
Não priorizei a minha saúde.
No caminho para casa ia zangada comigo e a massacrar-me por uma decisão tão estúpida.
Nessa noite, enquanto adormecia os miúdos, o meu filho, a fazer beicinho e de lágrima no olho diz.
– “mamã? eu não quero que tu morras”!!!
Baaaaammmmm, primeira chapada!
– “A mamã não vai morrer filho, está tudo bem com a mamã”
– “Mas se tu morreres eu fico sozinho com a M, não podes morrer”
– “Não vou morrer filho, não penses nisso. Vamos estar juntos para sempre, nós os três”
Nisto, a minha filha entra na conversa e diz:
– “eu também não quero que tu morras mãe, eu gosto tanto de ti”
– “Eu não vou morrer filha, eu prometo que nunca vos deixo.”
– “Prometes mãe? Prometes que tomas conta do teu corpo?”
Fiquei em silêncio durante um segundo.
Porque percebi que aquela não era uma pergunta qualquer.
Era um pedido.
Era talvez o maior pedido que um filho pode fazer a uma mãe.
Olhei para ela e respondi:
— Prometo. Vou tomar conta do meu corpo.
Ela abraçou-me e disse baixinho:
— Eu não quero que o teu corpo desapareça como o do papá…
E, naquele abraço a três, ficou selada uma promessa.
É uma promessa realista?
Se calhar não é. Não sabemos quando vamos morrer nem como. Mas foi uma promessa feita com o coração.
Enquanto eu viver, cuidarei melhor de mim, do meu corpo, da minha cabeça, do meu coração.
Quero que o nosso “para sempre” dure o maior tempo possível.
Às vezes passamos a vida inteira a cuidar de toda a gente e esquecemo-nos de que também somos alguém que precisa de cuidados.
Só que, quando os nossos filhos nos olham nos olhos e nos fazem um pedido destes, tudo muda.
Nesse instante percebemos que cuidar de nós também é uma forma de cuidar deles.
E há uma coisa de que tenho a certeza.
A mãe nunca quebra uma promessa.
Esta é uma promessa de mãe.

Sofia
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